6. MEDICINA E BEM-ESTAR 30.1.13

A REVOLUO DA TERAPIA GENTICA
Chega ao mercado o primeiro medicamento capaz de substituir um gene defeituoso por outro saudvel. Est inaugurada a era na qual doenas como a Aids e a diabetes podero ser tratadas simplesmente mudando o DNA
Monique Oliveira

Por muito tempo, falar em terapia gentica significava adentrar um terreno de pura experimentao da medicina, algo para beneficiar as geraes futuras. Agora esse futuro deixa de ser remoto. Chegou ao mercado o primeiro medicamento de terapia gnica  um marco na histria da medicina. Trata-se do Glybera, uma soluo aprovada pela agncia europeia que regula remdios para ser comercializada nos pases do continente a partir deste ano. A droga  a esperana de uma vida sem sofrimento para milhares de pessoas que possuem uma doena gentica rara, caracterizada por um defeito no gene que determina a produo da enzima lipoprotena lipase, responsvel pela digesto da gordura. Sem ela, o corpo no metaboliza o nutriente, o que acarreta srias consequncias, como sucessivas internaes por pancreatite (inflamao do pncreas). At hoje, no havia tratamento a no ser dieta restritiva.

O remdio troca o gene defeituoso por um saudvel, corrigindo o problema.  o princpio da terapia gnica. Dito assim, parece um conceito simples. Mas sua concretizao sempre foi um desafio. Para concluir o desenvolvimento do Glybera, por exemplo, foram 12 anos de trabalho, realizado pela companhia de biotecnologia holandesa UniQure. Isso porque a substituio do gene defeituoso pelo correto envolve um processo complexo. Primeiro,  preciso achar o que os cientistas chamam de veculo, o meio pelo qual o gene saudvel ser levado at o interior das clulas para tomar o lugar do que funciona erradamente. H algum tempo conclui-se que a melhor forma de fazer isso  usar um vrus. A escolha foi feita porque, ao invadir as clulas, esse micro-organismo mistura seu material gentico ao DNA das clulas e as faz funcionar como uma espcie de fbrica dele prprio.  dessa forma que ele se espalha pelo corpo. Portanto, j que ele atua dessa maneira, por que no utiliz-lo para transportar para dentro do corpo aquilo que se quer de fato?  uma estratgia chamada por muitos de cavalo de troia.

Uma das questes mais complicadas, porm,  fazer com que o vrus misture o gene desejado ao DNA das clulas, sem causar doenas. Entre os candidatos, um dos mais estudados  o vrus adeno-associado. Ele provoca menos reaes do sistema imunolgico,  mais fcil de manipular e no causa enfermidades. Foi o tipo escolhido pelos cientistas holandeses. Ainda assim, os pesquisadores utilizaram drogas para evitar a rejeio ao vrus. A terapia, ento, se mostrou eficaz. Com 12 injees aplicadas diretamente em msculos da perna dadas de uma s vez, os 27 pacientes que participaram dos testes  realizados no Canad e na Holanda  passaram finalmente a fabricar a enzima e continuaram sua produo sem necessidade de novas injees.

PRODUO -Pesquisador da companhia holandesa UniQure exibe o frasco da soluo composta de vrus e novos genes

Jrn Aldag, executivo que coordenou o estudo, garante que o tratamento  o fim da doena.  a cura, afirmou  ISTO. No mundo cientfico, a faanha foi comemorada. Eles no utilizaram uma estratgia nova, mas conseguiram que o gene de interesse fosse entregue ao paciente por um longo perodo, afirma o pesquisador Guilherme Baldo, do Centro de Terapia Gnica do Hospital de Clnicas de Porto Alegre. Mais estudos so necessrios, mas a terapia  muito interessante, diz o cardiologista Raul Santos, consultor do Centro de Medicina Preventiva Einstein e professor da Universidade de So Paulo (USP). Esperamos a sua utilizao no Pas, afirma Eliana Cotta de Faria, da Faculdade de Cincias Mdicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Por enquanto, a droga s est disponvel na Europa e est sendo submetida  aprovao nos EUA. Mas  possvel realizar o tratamento de brasileiros que desejarem vir  Holanda, diz Aldag.  preciso analisar cada caso. Segundo a empresa holandesa,  cedo para definir o custo da terapia. H especulaes de que o tratamento poderia chegar a custar cerca de 1,5 milho de euros, o equivalente a quase R$ 3 milhes.

Em um contexto mais amplo, a aprovao do Glybera significa que o mundo j est capacitado a avanar na terapia gnica. Esse remdio abre uma porteira para esse tipo de tratamento, comemora Carlos Menck, do Instituto de Cincias Biomdicas da Universidade de So Paulo e pesquisador de terapia gentica na rea do cncer. De fato, a fronteira foi aberta. O prximo remdio da categoria a chegar ao mercado ser para o tratamento da Sndrome de Imunodeficincia Combinada, uma doena gentica que impede o funcionamento do sistema imunolgico. O laboratrio GlaxoSmithKline, em parceria com o Instituto MolMed, na Itlia, aguarda a liberao das agncias reguladoras para vender a droga. Ela est em estudo h mais de 11 anos em centros de excelncia, como o Instituto Nacional de Sade dos Estados Unidos (NIH). Mdicos e pacientes no tm muita opo, disse  ISTO Dan Kastner, diretor-cientfico do Instituto Nacional de Pesquisa para o Genoma Humano, um brao do NIH. A instituio j restaurou o sistema imunolgico de trs crianas com a terapia.

FUTURO - Na Unicamp, a cientista Margareth Ozelo estuda a terapia gnica para tratar a hemofilia

Nos laboratrios, h uma profuso de testes clnicos usando a manipulao gentica a nosso favor. Os genes enxertados tm propsitos diferentes. Entre outras funes, podem mandar as clulas destruir um tumor, corrigir uma mutao, determinar a fabricao de protenas ou aumentar a capacidade de funcionamento do sistema imunolgico. Em um experimento realizado no Instituto Feinstein de Pesquisa Mdica de Nova York (EUA), por exemplo, os cientistas injetaram no crebro de 65 pacientes com doena de Parkinson uma soluo contendo um gene que determina a produo de uma protena cuja ausncia pode deflagrar sintomas da enfermidade. Os doentes que receberam a injeo apresentaram melhora de 23% nos sintomas. J os que receberam placebo, 12%. A terapia gnica para doenas como Parkinson  uma realidade, disse  ISTO Andrew Feigin, autor do estudo.

BENEFCIO -A canadense Katlyn Demerchant, 7 anos, usou com sucesso umaforma de terapia gentica contra doena que afeta o sistema imunolgico

O mesmo panorama  observado em relao  Aids. Na ltima semana, cientistas da Escola de Medicina de Stanford (EUA) publicaram um artigo no qual relataram que conseguiram modificar geneticamente os linfcitos T (clulas de defesa invadidas pelo HIV) de modo a torn-los resistentes  entrada do vrus. Por enquanto, os estudos esto em nvel bastante preliminar, mas o feito  um passo importantssimo no combate  doena. Em outra ponta, os cientistas continuam a lutar por uma vacina. Uma pesquisa feita pelo Instituto de Tecnologia de Pasadena mostrou que uma soluo contendo genes responsveis pela produo de anticorpos contra o HIV impediu por completo, em animais, a contaminao pelo vrus. Em humanos, h uma experincia em curso h 11 anos. Em 2012, parte dos resultados foi publicada no renomado Science Translational of Medicine. Os genes associados  produo de anticorpos anti-HIV continuam funcionando. No h sinal de reao imunolgica. A doena, porm, no foi totalmente controlada.

POTENCIAL -O cientista Carlos Menck, da USP, investiga como a gentica pode combater o cncer

Outra enfermidade na qual a terapia dos genes poder salvar vidas  a diabetes. O tratamento objetiva regularizar a produo e aproveitamento da insulina, hormnio que permite a entrada, nas clulas, da glicose circulante no sangue. Na Faculdade de Medicina de Baylor (EUA), cientistas reverteram a doena em ratos: tanto a diabetes tipo 1, a forma hereditria, quanto a diabetes tipo 2, a adquirida. Pelo menos em animais, pode-se dizer que  uma cura, disse  ISTO Lawrence Chan, lder do trabalho.

No Brasil, a Unicamp testar a terapia gnica como tratamento para pacientes com hemofilia B grave, uma doena gentica que provoca graves hemorragias pela ausncia de Fator IX, responsvel pela coagulao do sangue. Tivemos trs pacientes que receberam esse tipo de tratamento e esto bem, relata Margareth Ozelo, diretora da unidade de hemofilia do hemocentro da universidade. A estratgia  inserir genes vinculados  produo do fator IX.

Tambm h esperanas no tratamento do cncer. Uma delas reside no combate ao melanoma, a forma mais grave dos cnceres de pele. Cientistas da Universidade de San Diego dotaram o vrus da herpes com instrues genticas que permitem ao organismo destruir as clulas tumorais e ter o sistema de defesa fortalecido. Dos 30 pacientes que receberam esse vrus modificado, 26% tiveram resposta positiva ou regresso da doena. Na China, h uma droga aprovada contra o carcinoma (outro tipo de cncer de pele). No Instituto de Cincias Biomdicas da USP, os cientistas estudam possveis reparos no DNA que podem proteger contra a doena. Outra abordagem  fazer com que a clula doente fique mais sensvel aos quimioterpicos.

No campo da cardiologia, as experincias so igualmente diversas. Aqui, as estratgias vo desde usar a terapia gentica para combater o acmulo de gordura nas artrias at o controle da presso arterial. Na mais recente delas, pesquisadores da Escola de Medicina de Monte Sinai (EUA) testaram uma droga para tratar e prevenir a insuficincia cardaca. A equipe descobriu que a protena SUMO1 fica diminuda nesses pacientes. Eles injetaram, em animais, um gene capaz de regular a produo dessa substncia. A funo cardaca melhorou significativamente.  Tambm est em estudo uma vacina com genes capazes de levar o sistema imunolgico a atacar as placas de gordura oxidadas nas artrias, problema que pode levar ao infarto. No Instituto do Corao, de So Paulo, o professor Jos Eduardo Krieger tambm estuda o potencial da terapia. Em animais, tivemos resultados positivos com proteo cardaca ps-infarto.

Apesar do sucesso desses recursos, algumas ponderaes so necessrias. Hoje, permanece a existncia de limites tcnicos para a produo em larga escala dos vrus modificados geneticamente, os tais veculos. Isso ainda encarece brutalmente o tratamento. Tambm ainda se buscam formas de assegurar que os genes inseridos funcionem adequadamente e no induzam  formao de problemas, como tumores. Porm, a contar pelos desafios j enfrentados pela terapia,  de esperar que os obstculos fiquem cada vez mais para trs.

